A Comunicação do Essencial e o Colírio

O Essencial - As horas vão passando dentro do Cenáculo. Uma vigília tensa, sobretudo densa na comunicação do amor. A ansiedade não poderia sobrepujar o amor. Em horas de despedida, os sentimentos tornam-se mais concentrados; tudo parece adquirir novo relevo. Relativizam-se tantas coisas; e o essencial pode então surgir como a pura e límpida água da fonte.

O essencial daquela noite é o essencial em toda a mensagem de Jesus: o amor! "Como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou" (Jô. 13,1). Entrega a eles seu testamento, porque entregar-se-ia a si mesmo: "Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" e ainda acrescenta: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jô. 13, 34-35).

Este é verdadeiramente o sinal distintivo daqueles que querem seguir Jesus. Uma identidade que está na linha do ser e não do fazer. Se o exterior não for reflexo do que há no interior, tudo será vazio. É clássico o texto de Paulo que chama a atenção ao Ser, quando diz: "ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria" (1Cor. 13,3).

O Colírio - Não se pode ter acesso ao verdadeiro espírito do Evangelho, sem tirar de nossos olhos os tantos filtros que fomos colocando, consciente ou inconscientemente e que nos distanciam da verdadeira mensagem do Mestre. A doutrina não pode sobrepujar a Pessoa. Os costumes não substituem a inspiração. A teologia sem a experiência é vazia.

O convite é para retornarmos ao Cenáculo para lá aprendermos com o Mestre e mais: deixar-nos banhar e transformar pelo seu amor sem par. Mas corremos o risco de subir as escadas ao andar superior com o velho e viciado olhar míope. Para poder vivenciar a densidade do dom que ali se comunica é preciso antes comprar "um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro" (Ap. 3, 18).

Paulo, para experimentar o dom do cenáculo teve de receber esse colírio primeiro. Para provar a verdadeira luz teve de aceitar sua cegueira interior, que só se tornou consciência quando ficou cego fisicamente por três dias. "Abrindo os olhos não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber" (At. 9, 8-9).

Dentro do Cenáculo, cada um dos discípulos manifestava sua cegueira de um modo: Judas (Jô. 13, 26-27). Pedro (Jô. 13, 36-38), Filipe (Jô. 14, 8-9). Não só os três, mas todos necessitavam daquele colírio que cura a incredulidade, o preconceito, a tradição religiosa. Tomé foi o último deles a ter os abertos e isso só aconteceu, de fato, após a ressurreição (Jô. 20, 24-29).

Buscando o Colírio e o Essencial - Ore: - Quero, Senhor, entrar no Cenáculo, mas sei que preciso do teu colírio para poder ver claro. O olhar que volto à Palavra ainda projeta muito de minhas próprias sombras. O olhar que lanço ao mundo e às pessoas é por vezes destituído de real compaixão. Não quero viver uma piedade externa, estéril e vazia. Não quero me deixar levar por preconceitos, sejam eles quais forem. Quero mergulhar na essência do Mandamento Novo. Quero ser mais uma pessoa de fé do que simplesmente uma pessoa religiosa. Quero descobrir o que realmente importa e o que importa é o Amor. Quero ser teu discípulo, ensinado por ti, alimentado por ti, consolado por ti. Amém

Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva





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