|
Rua Castelos e Portas
Percorri as tumultuadas ruas, atravessei as largas avenidas, divisei os enormes arranha-céus, inspirei monóxido de carbono, ouvi todas as melodias, senti os odores mais diversos, atravessei os conglomerados barulhentos, povoados por toda espécie de coisas e gente. Imagens, lembranças, vivências, rostos e idéias; pensamentos, sonhos e projetos, imaginação; palavras, frases, fragmentos, roteiros, histórias inteiras; dores, tristezas, alegrias, êxtases, amores e rancores; medos, coragem; saúde, doença, corpo, células e sexualidade; vidas e mortes.
Há dias em que percorremos um determinado itinerário interior. Há também aquelas épocas em repetimos durante dias, meses e até anos o mesmo percurso, as mesmas ruas com as mesmas edificações, entramos nos mesmos prédios, sentamos no mesmo banco do mesmo jardim - provavelmente cada vez com menos flores e verde. Repetição! Caminho de angústia ou, pelo menos sem perspectivas. E sabe qual o destino final desse caminho? Um estacionamento! Ali é que acaba por se construir a casa de quem repete o mesmo roteiro interior, dia-a-dia. Um estacionamento! Vida sem progresso e crescimento. Estacionamento.
Até que um dia, resolve-se sair dessas ruas e desses roteiros que, consciente ou inconscientemente, nós traçamos. Pega-se o caminho do bosque, enfrenta-se a estrada de chão, o barro dos dias de chuva ou a poeira dos dias secos e vai-se adentrando mais e mais profundamente no interior da alma, deixando a "cidade grande", habitada por tantos e tantos barulhos, para se chegar àquele castelo interior.
Lamentava Catarina de Siena de poder colher da alma somente o superficial reflexo como de um poço muito obscuro e profundo. Agostinho já a tinha descrito como uma caverna de tesouros intocáveis, e tinha narrado a ânsia de percorrer os corredores e cubículos da memória no abissal palácio ou castelo da alma. De uma forma ou de outra, é preciso ir além e buscar o fundo desse poço ou adentrar nesse castelo, mesmo que precedido de vastos corredores e até algumas armadilhas.
Tereza D'Ávila o imaginou como um castelo de cristal, não um castelo fechado, mas como uma construção irregular de moradas ou aposentos. Explicou que no interior desse castelo há sete moradas. Esse castelo é a alma com profundezas a serem exploradas, diz ela, avisando às suas filhas que "há dentro de vós uma coisa mais piedosa do que aquilo que vemos no exterior. Entra-se nesse castelo da alma pela oração, nos seus graus cada vez mais despojados e puros que nos fazem experimentar a vida de Deus em nós".
Será que conseguiremos entrar nas "sete moradas" deste castelo? Talvez sim, talvez não. Mas de uma coisa sabemos: temos a chave e ela nos foi dada por Jesus, sua Divina Graça. Esta Graça é "acessada" pela oração. Então, ore! Transforme tudo em oração em sua vida. Não se preocupe se você está percorrendo este ou aquele corredor, se está entrando nesta ou naquela morada. Pode ser que para entrar numa destas sete moradas seja necessário você percorrer alguns outros cômodos e câmaras e até libertar alguns "cativos" em seu interior. Este é o mês de abrir estes pórticos, mas nunca sozinho: com Jesus ao seu lado, como força de libertação.
E se além de nosso próprio inconsciente está nosso espírito, podemos também através da oração entregar nas mãos do Senhor o inconsciente para que do espírito flua Luz para as áreas diversas que aí precisam ser curadas ou fortalecidas. Como o sono é o reinado do inconsciente, proponho que você faça concretamente neste mês o exercício de entregá-lo em oração ao Senhor. Faça a experiência! Anote suas intuições para que você perceba se há um movimento interno de mudança em seu interior.
Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva
|