Espiritualidade - Outubro 2006

Não carregue seus mortos!

“Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.” (Mc. 1, 29-31).

No início da missão para a qual tinha sido enviado de comunicar vida abundante a toda humanidade (cf. Jo 10, 10), Jesus convida André e João a irem até sua casa. Ele oferece, na verdade, seu próprio coração como casa para o discípulo de todos os tempos (vide minha crônica “Minha Casa, Sua Casa” – Espiritualidade, setembro 2006). Agora, é hora dEle mesmo ir à casa do discípulo. É o que vemos acontecendo com Pedro. Jesus não foi à casa de André e de Pedro para curar sua sogra, mas, eventualmente ela estava enferma e foi curada.

Antes de Pedro, o apóstolo, Simão, o discípulo

Naquele momento, Pedro ainda não havia recebido este nome que marca sua missão como “pedra” sobre a qual o Mestre iria construir sua Igreja (Mt 16, 17-19). O discípulo Simão está começando seu caminho. Podemos dizer que ele ainda não era “apóstolo” (palavra grega que significa “enviado”), pois ainda não havia sido enviado. Jesus entra na casa do discípulo (seguidor), que é mais do que um aluno ou estudante. O discípulo não só aprende, como faz o aluno o ensinamento de seu professor, mas compromete-se com este ensino e com a pessoa mesma do mestre.

No relato da ida de Jesus à casa do discípulo Simão, podemos entrever nesta visita a entrada de Jesus nas raízes da pessoa que se propõe a segui-lo. Quando Jesus entra em nossa casa, Ele estabelece laços com aquilo que somos e mais: Ele cura o que ali está enfermo, especialmente nossas marcas familiares.

“Carregar mortos” e “olhar para trás”

Há um trecho do Evangelho que costuma assustar as pessoas, a uma primeira vista: “Jesus disse a um homem: ‘Segue-me’. Mas ele pediu: ‘Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai’. Mas Jesus disse-lhe: ‘Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.’ Um outro ainda lhe falou: ‘Senhor, seguir-te-ei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa’. Mas Jesus disse-lhe: ‘Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto ao Reino de Deus.’ (Lc 9, 59-62). O texto paralelo a este, em Mateus, refere-se ao homem que pede para enterrar seu pai, chamando-o de “discípulo” (cf. Mt 9, 21-22).

Jesus está pregando que se deixe para trás a família, sem se importar até mesmo com os que morrem? Certamente que não! O problema não é “enterrar os mortos” como tal, mas “carregar os mortos” consigo, ou seja, ter os olhos voltados para trás; “mortos” tem aqui um significado simbólico e não literal. É tudo aquilo do passado que amarra, que não deixa a pessoa livre para criar um novo modo de ser e viver, novos vínculos e perspectivas.

A realidade, senão a sensação, é de estar amarrado mesmo. Veja a pessoa que sofreu um trauma, uma decepção ou está magoada com alguém e que sempre está voltando doloridamente ao acontecido: ela está amarrada ao seu passado, “carrega mortos” em suas costas, não se abre a uma forma reconciliada de encarar o passado. Com isso, a construção do futuro fica comprometida em suas bases. É preciso deixar que “os mortos enterrem seus mortos” e “não olhar para trás” depois que se colocou a mão no arado.

Curadores feridos

Logo que a sogra de Pedro é curada, ela põe-se a servi-los. O Mestre Jesus entra na casa do discípulo, toca suas raízes, liberta-o de suas amarras, cura o seu interior e este, mais livremente, pode colocar-se a serviço.

Este não é um processo que se dá de forma retilínea, cronológica; ele é dialético, ou seja, está em constante transformação e sempre quando se chega a uma conclusão, abre-se um novo questionamento que faz surgir uma resposta que, por sua vez, se torna uma nova pergunta. Nunca o discípulo estará pronto, curado, liberto de todas as suas amarras. Por isso é bela a expressão do teólogo redentorista Bernard Häring quando diz que somos todos “curadores feridos” (confira a lenda de Quíron). Sempre Jesus precisará entrar em nossa casa, tocar nossas raízes e nos fazer avançar. É grande a tentação de tornar a “carregar mortos” e “olhar para trás”.

Deixe que Jesus cure suas RAÍZES FAMILIARES. Ore, pedindo cura interior profunda. Se for possível, participe de uma oração de cura interior com alguém ministrado nessa área. Em alguns casos é aconselhado até procurar um psicoterapeuta. E, lembre-se, como discípulo de Jesus, você sempre será um “curador ferido”!

Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva





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