|
Espiritualidade Junho 2007
Mansos e humildes de coração!?
Numa noite destas não dormi bem. Estava agitado. Minha mente pulava de um pensamento a outro, numa seqüência desgastante e quase incontrolável. Eu lutava para conciliar-me com o sono, mas quanto mais lutava mais agitado ficava. Não havia como conciliar-me com o sono sem antes reconciliar-me. As sombras das realidades sobrepujavam-nas.
O vento impetuoso de Pentecostes ainda sopra sobre nós e assim deve permanecer, mesmo que seja como uma brisa fresca. Aquecem-nos e queimam-nos as línguas de fogo vindas sobre nossas cabeças. É o Espírito Santo nos conduzindo e fazendo de nós discípulos-missionários de Jesus, dilatando seu Reino de paz e justiça.
O Espírito Santo, dom do Coração!
O principal dom do Espírito é o amor, porque o Espírito é Amor! E o amor tem como principal ação em nós dilatar o nosso coração, ampliá-lo na medida do Coração de Jesus que é amplo especialmente em seu amor. Todos os dons e carismas do Espírito estão voltados para o exercício multíplice do amor.
“Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração. ” (At 2, 46-47)
“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. ” (At 4, 32ª)
“Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas.” (Mt 11, 29)
O próprio Espírito Santo é dom do Coração de Jesus ressuscitado. O Coração ferido de Jesus é um coração dilatado por amor de nós. Deixou-se rasgar para dar de si a todos.
Interioridade amorizada
Se você estiver aberto, o Espírito “o conduzirá aonde você não quer ir” (Jo 21, 18), ou seja, além do seu “eu”. O “eu” que me confere identidade é o mesmo que me escraviza. Por isso, se Deus é de fato Deus em mim e para mim, Ele me constrange, tira-me do centro para levar-me ao centro que nunca é o “eu” fechado nele mesmo, mas aberto ao outro. É o “tu” do outro que me identifica como “eu”. O “Eu” de Jesus como Filho é conferido pelo “Tu” do Pai.
O coração que se dilata, que se expande é aquele que vai se tornando semelhante ao Coração de Jesus, que é manso e humilde. É manso de coração aquele que responde às provocações diversas da vida não como uma simples reação impulsiva motivada pelo que vem de fora e sim a partir de uma interioridade amorizada. Quem assim vive é livre, como Jesus foi livre, mesmo estando preso e sendo maltratado. Quando se vive a partir dessa interioridade, ninguém mais consegue prendê-lo, grade alguma pode detê-lo, pois o coração humano tocou o ilimitado do Coração de Deus. Estamos ainda muito longe dessa realidade. Ainda nos deixamos prender por coisas demasiadamente pequenas; muito facilmente perdemos a liberdade na qual o Espírito veio para nos introduzir: “Não vos deixeis prender novamente ao jugo” (Gl 5, 1).
Pôr-se a caminho e rever o caminho
Você não precisa sair convertido depois de ler este artigo, mas você precisa estar a caminho e ter sinceridade nessa busca; estar aberto ao que o Espírito vai lhe falando no caminho, fugindo de um processo de auto-justificação que o leve a fechar-se em seus pontos de vista e comportamentos.
Para viver esta realidade é necessário um processo contínuo de revisão. Ao final do dia, não basta apenas agradecer pelo que foi vivido, mas perguntar-se: como foi meu dia hoje? Que respostas eu dei às situações que se me apresentaram? Como reagi às diversas provocações que me foram feitas no dia de hoje? Entenda-se que provocações aqui não têm o caráter de ofensa. A vida sempre me pro-voca, me chama a algo.
O Espírito para dilatar o coração toca em suas artérias, que, por vezes, estão obstruídas. Tudo aquilo que impede a circulação deve ser tratado para deixar o fluxo de sangue correr normalmente. E qual é o sangue que corre por nossas artérias psico-espirituais? O Amor! Toda mágoa, ressentimento, auto-imagem negativa, prejudicam a circulação do amor em nós. Isso se combate com perdão, aceitação, uma vida na Graça. É assim que aprendemos a ser mansos e humildes de coração!
Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva
|