Espiritualidade - Abril de 2010 - Especial Páscoa

PÁSCOA

o cume da primorosa obra de arte de nossa salvação!

Fr. Ricardo Alexandre Ferreira, C.Ss.R.

Eis que passado o tempo de penitência e recolhimento proposto pela dinâmica quaresmal, chegamos, finalmente, à festa da Páscoa de Jesus. Celebrando a vitória de Cristo sobre a morte e o pecado, entoamos com entusiasmo os “aleluias” festivos de uma grande ação de graças a Deus pela manifestação de sua glória na ressurreição de seu filho Jesus, que vence a morte e o pecado. Renova-se ao mesmo tempo nossa esperança de que, como filhos no filho Jesus, podemos sim viver com ardor sempre novo sob a guia do Espírito do Ressuscitado. São Paulo mesmo afirma na Carta aos Romanos: “Se já morremos com Cristo, com ele viveremos. Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais [...] assim vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus”. (Rm 6,8-11)

Um processo em construção

A afirmação do apóstolo apresenta claramente o que deve significar a festa da Páscoa para o cristão. Não é possível celebrar a vitória definitiva de Cristo sobre a morte se não depositamos em sua cruz o velho homem, de maneira a deixar que se promovam em nós mudanças mais significativas pela ação de seu Espírito. Neste sentido, a grande mensagem pascal é a de que na vivência do mistério pascal assumimos nossa filiação, a partir da filialidade de Cristo, entregue por nós e ressuscitado por Deus. Cristo se entrega não para morrer no nosso lugar, mas porque em seu infinito amor se solidariza conosco e traz em sua doação o desejo de que nos aproximemos de forma definitiva do grande mistério de Deus a se revelar no seio da comunidade. Em sua entrega a nós Jesus revela o infinito amor de Deus pelos seres humanos, e nos convida à comunhão na Trindade. Em Jesus, Deus participa de nossa humanidade para nos convidar a fazer parte de sua divina existência (cf. Fl 2,1-18). E nesse desejo se poderia resumir toda a história da salvação que culmina na grande graça que é o mistério pascal – cruz, morte e ressurreição.

Partindo disso, ousaria afirmar que a história da salvação se coloca como uma grande obra de arte, com suas diversas nuances e seus mais profundos significados. A arte dessa grande obra se apresenta num processo de crescente densidade, tendo seu ponto mais alto na Páscoa que agora celebramos de maneira especial neste tempo, e recordamos sempre na Eucaristia celebrada em comunidade. Uma obra de arte não é algo pronto e fechado, mas sim o resultado de uma dinâmica de criação e interação, que passa a ter significado especial para quem faz a experiência de aproximar-se e deixar-se tocar por ela. Quem não se sente afetado pela Monalisa ou a Santa Ceia de Da Vinci? Quem não se emociona com as belas pinturas e esculturas de Michelangelo? Quem não se surpreende com a genialidade artística das igrejas antigas, ou das esculturas de Aleijadinho? E isso porque a cada um essas imagens evocam significados diferentes, se identificando com o mais profundo de nossa sensibilidade.

Assim também com a história da salvação em que, não obstante os vários tropeços humanos, desponta com máxima distinção a misericórdia infinita de Deus, sempre em vista da libertação de seu povo. Destarte, nenhum momento dessa história, e nenhuma personagem, deixam de apresentar significados importantes para os homens e mulheres de todos os tempos, na busca de uma maturidade na fé. A história da salvação aponta como a graça de Deus pode mudar ou não a vida de uma pessoa e um povo, desde que haja sincero desejo de acolher os desígnios de Deus. Assim se dá, por exemplo, com Abraão, homem simples chamado a constituir uma nação, e cuja vocação não tem sentido exclusivista, mas universal, pois que a eleição desse povo se dá em vista da universalização da fé no Senhor. Em Abraão, Deus elege um povo, mas não está ligado somente a ele, e sim procura admoestá-lo para que seja exemplo às outras nações (cf. Gn 12,1-9). E quando esse povo se desvia de seu caminho surgem os profetas para relembrá-lo de que sua vocação é de ser reflexo da graça de Deus para os outros. Nisto consiste a experiência do amor incondicional de Deus, que releva mesmo os mais graves delitos desde que haja sincero desejo de mudança.

Filhos no Filho

Dessa grandiosidade do amor de Deus desponta a primeira experiência pascal, na libertação dos hebreus da escravidão egípcia. Num evento prodigioso, Deus abre caminho para que seu povo consiga alcançar a liberdade. Mas liberdade responsável, que tenha em vista a fidelidade à aliança com aquele que o libertou (cf. Ex 12,1-14;21-28). Após esse episódio, muitos outros surgem de forma a dar relevo àquele que sem dúvida é o evento principal dessa história e, portanto, aquele para o qual convergem nossos olhos diante da grande pintura que se nos apresenta. E aí se encontra o mistério pascal de Cristo como lugar principal e definitivo do restabelecimento da aliança entre Deus e seu povo. Para este acontecimento se dirigem nossos olhos, porque sem dúvida ele torna-se divisor de águas, uma vez que apresenta à humanidade sua vocação primordial, que é a de tornar-se filhos, no filho Jesus, entregue por nossa salvação.

Daí que as diversas personagens dessa parte da obra apresentam formas diferentes de se colocar diante de Deus. Surgem personagens que não só têm significado naquele contexto, como também podem ser vistas como personalidades corporativas a nos mostrar reflexos de nossas opções. Judas, por exemplo, pode ser visto como figuração de todo aquele que não consegue compreender e aceitar o tempo de Deus, e tendo o coração indisposto à possibilidade de reconhecer seu erro, foge da presença de Deus de forma trágica. Alguns entre os fariseus mostram o apego a uma lei externa, mas sem que ela atinja o coração. Mas, também, surgem personalidades como Pedro, que tomado pelo medo foge na hora da cruz, mas refeito em sua fé surge de maneira totalmente diferente nos Atos dos Apóstolos, como se pode ver em seus efusivos discursos em que o Espírito Santo é o sujeito da ação (Cf. At 2,14-36).

Diante dos espaços vazios

Muitos outros acontecimentos e personagens têm importância nesse quadro e devem ser sempre observados na vida cristã, em vista de um renovado impulso na construção de um mundo novo.
Temos com a imagem pascal a renovação da esperança que não só comove nossos corações, mas nos convida a amadurecer nossa fé, fazendo parte dessa obra criadora de Deus que, ao mesmo tempo, se apresenta a nós e nos chama a ocupar o nosso lugar. Ainda há muitos espaços vagos e muita escuridão que necessita da luz que podemos oferecer com nossa vida e fé. Portanto, celebrar a Páscoa de Jesus é poder se colocar na dinâmica da obra maravilhosa que Deus pintou e continua a retocar pela ação do Espírito que move em cada ser humano. A Páscoa de Cristo se plenificará de vez em nosso mundo quando conseguir romper os limites de nossas igrejas, tornando-se realidade em um mundo que ainda hoje continua a crucificar Jesus em cada irmão, que sofre e morre desassistido em nosso meio.

Com a Páscoa renova-se a esperança de que a utopia do Reino de Deus não pode perder espaço em nosso mundo.

Que a presença do ressuscitado encha de cores nossas vidas, às vezes, apagadas pela desesperança!



 




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