DESCONSTRUINDO.
É saudável des-fazer o engano seguinte: o sujeito humano como corpo (Parte I) e como espírito (Parte II). Não, nós não somos duas partes reunidas e que um dia se separarão. Separar-nos em duas partes, corpo/espírito, é um engano venenoso. Esse modo envenenado fincou raízes vindo do mundo grego de pensar a vida. Não é o modo bíblico de pensar a realidade humana. Então, cada cristão precisa des-montar na sua cabeça este esquema, também chamado de dualismo. Não nos ajuda entender o que somos, a totalidade de nós. Um ser inteiro, ainda que composto. Em tal modelo o corpo morre e fica por aqui; já o espírito voa e seria julgado por Deus. Não. Assim não dá.
Para toda vida:
“É por isso que nós não perdemos a coragem; e mesmo se, em nós, o homem exterior se encaminha para a ruína, o homem interior se renova dia a dia”. 2Cor 4, l6
ENTENDENDO MELHOR.
Nas Escrituras existe o ser humano-carne. Dizendo “o Verbo se fez carne”, estamos afirmando: o Filho único do Pai se fez homem, gente como nós; chora, sofre, canta, vibra, anuncia, tece relações. Cada um de nós, homem ou mulher, se relaciona, se aproxima, se comunica, se toca, se quer bem. E sofre por não dar conta, de saída, ao melhor de si mesmo. Somos um feixe de relações. Portanto, o sujeito humano-corpo é a pessoa toda em um fluxo de relacionamentos.
Nas mesmas Escrituras existe o ser humano-espírito: é a pessoa toda enquanto se relaciona com o que nos transcende, com o Mistério Divino, Deus. Sujeito humano-espírito somos nós quando sonhamos e desejamos, buscando uma destinação permanente e feliz. Queremos ser eternos. Queremos Deus.
Para toda vida:
“Vem, Espírito Santo!
Vem, força de Deus e doçura do Senhor.
Vem, tu que és ao mesmo tempo
Movimento e repouso.
Renova a nossa coragem
Cria em nós a intimidade com Deus”. (Cantalamessa)
VIVER NO ESPÍRITO.
Espírito diz que somos sujeitos. O computador não é sujeito. Não pensa, não decide, não escolhe, não ama, não se arrepende, não recomeça fazendo coisas novas. Apenas está inteligentemente programado. É máquina. Nós somos – Deus louvado – criaturas criadas criadoras. Não somos programados. Somos gente de liberdade. Criamos nossa identidade, construímos um modo de ser e conviver. Pessoas e cidadãos em democracia para todos. Não somos máquina biológica, somos biografia: temos uma história e vamos realizando coisas novas.
Somos Espírito. Construímos com os outros caminhos de cidadania. Seremos sempre uma história de libertações e de liberdade. Homem-espírito significa, então, cultivadores da subjetividade. Cuidamos de nós mesmos e de nosso potencial de criar, de nos tornar solidários. Homens e mulheres, pessoas à luz do Deus da Vida.
Para toda vida:
“Sabermos que estamos nele e Ele em nós por nos haver dado o seu Espírito” 1Jo 4,13.
- Vinde, Espírito de Deus, dai aos corações, vossos sete dons.
DE QUE ESPÍRITO FALAMOS.
Na raiz do existir, o Espírito nos encaminha para o Espírito Santo, dom recebido de Jesus e do Pai: o que se faz presente em tudo e coloca a existência em movimento; gera e sustenta a vida; nutre em nós o desejo de mais ser. Ele renova a face da terra. É como o vento, o Sopro; é inspiração. Viver segundo o Espírito é a definição que o apóstolo Paulo dá para a vida cristã.
O Cristo Senhor é Espírito, pois ressuscitado. Não mais é segundo a carne: fraco e mortal. Jesus de Nazaré o crucificado, já não morre. Jesus, o Cristo, vive no modo pleno do Espírito que ressuscita toda carne. (Creio na ressurreição da carne. Crês deveras?) Todo batizado, seguidor de Jesus está na liberdade. Há de se tornar nova criatura. Há de viver a espiritualidade que vem do Espírito Santo, criador da vida que vai vencendo em nós as células de morte, as intrigas de maldades, as cumplicidades destruidoras da verdade e do amor.
Para toda vida:
- A cada dia plantamos alguma coisa. Fica a pergunta: o que exatamente você vem plantando a cada dia?
- Sementes de vida. Rumine esta pequena frase. E pense a seguir: Que colheita virá do que planto cada dia?
FALAMOS DO ESPÍRITO SANTO.
Falamos do Espírito Santo que recebemos de Jesus ressuscitado. Espírito de Amor e Verdade, da verdade que nos liberta; chamando-nos à comunhão com todos os seres e com as pessoas. Construindo o Reino do Pai. Nestes caminhos pelos campos do Reino somos solidários. Sem exclusões.
O Espírito Santo não nos traz nenhuma mensagem diferente das coisas humano-divinas de Jesus. Confirma o que nos foi revelado em Jesus e por Jesus. Educa-nos na compreensão da pessoa de Jesus e sua missão redentora. Facilita-nos ler “os sinais dos tempos” e agir segundo a justiça do Reino. Em favor de todos. Atualiza na vida da Igreja, e nas escolhas de cada um, a experiência de amar como Jesus. Espírito, pois, vivificante. 1Cor 15, 45. 2 Cor 3, 17.
Para toda vida:
“Tu que és o Espírito criador e reúnes todas as coisas,
faça-me entrar em comunhão com o universo e com todos os seres, e especialmente com aqueles que sofrem”. (L. Boff)
- Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!
LÍNGUAS DE FOGO.
“Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” Lc 3,16. Sobre os apóstolos reunidos no Cenáculo o Espírito é recebido em forma de línguas de fogo. Ele vem para a purificação e para o ardor pelo Reino. Para a evangelização. Por uma vida espiritual sem mediocridade.
Purificação. Viver no Espírito é viver um caminho de mudanças. Todo aquele que se sabe mudado, ajuda a realidade a ser melhor. Espiritualidade de mudanças. “Eis que faço novas todas as coisas”. Novo jeito de ser em família; de ser companheiro (a) no trabalho; de ser cidadão.
Não somos sozinhos criadores de nós mesmos. Muitas são as ajudas e muitas as interferências. Além de haver em nós mesmos o fogo estranho dos desafetos, das injustiças praticadas e recebidas, da violência, da corrupção, da vida em pedaços. O pecado nos fragmenta; as infidelidades nos perdem. A chama divina queima em nós essas contradições. Ela é perdão, absolvição: dissolve o mal. “Ao sujo, lavai. Ao seco, regai. Curai o doente. Dobrai o que é duro. Guiai no escuro. O frio aquecei”. Dissolvendo o mal, torna-se “no labor, descanso. Na aflição, remanso. No calor, aragem”... para que a vida seja solidária. Para que haja horizontes de esperança. Honradez.
A vida é um experimentar a nós mesmos através de relacionamentos, do trabalho, das ocupações, do ser Igreja. Que aprendizado! No fogo divino a vida cura a vida. Dói, é verdade. E muito! Mas nos liberta de vícios, dependências, apegos. Livra-nos de levar a vida pelo seu lado menor, às vezes mesquinho e utilitarista. O Espírito Santo em nós acende a chama da dadivosidade: abertos, generosos, dedicados. Como Jesus: dar a vida; dar vida.
Para a vida toda:
- Só vê o mundo transfigurando-se quem purifica seus olhos e conserva limpo o coração. Somente assim podemos sentir o mundo irmão. Em comunhão universal.
- Pergunta: Como você vem assumindo o fogo purificador que é a presença do Espírito Santo, hóspede de seu ser?
- Enche, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!
A CHAMA.
Viver segundo o Espírito é ir pela vida experimentando mudanças interiores. E gerando mudanças grupais, societárias, democracia social: direitos iguais para todos.
Nós, e a Igreja que somos, parecemos então como uma vela. Nossas condições de vida são a cera, o volume, o entorno, a carne do ser. O pavio é nossa escolha por uma estrutura de vida que faz sentido, traz valor e gosto de conviver, alegria de ser. A chama é o Espírito Santo de Jesus que nos faz percorrer caminhos de luz. A chama arde, queima, derrete as durezas e nos torna LUZ (Enchei, Luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!). Assim, entramos no movimento da copiosa redenção de Jesus para toda a história humana que se transmuta em história de Salvação.
Vivendo como LUZ, na luz de Cristo, vivemos nosso caminho no quente das situações humanas. Vida intensa. Vida de serviço. Vida de gente livre e fiel em Cristo. Todos pertencentes à Casa do Pai. E peregrinando por este planeta Terra, assumimos tudo que é verdadeiramente humano. Ao fazê-lo, podemos desistir de ambições e poder destrutivos; podemos em meio às asperezas da vida fazer uma pausa e celebrar Deus-conosco:- a Eucaristia. Nas celebrações reacende-se em nós todos ali reunidos a luz do mesmo amor, da mesma esperança que nos fortalece para as lutas. Sim, a espiritualidade de quem vive no Espírito nos ensina a celebrar a vida com os companheiros de trabalho, como os amigos, em família. Tudo floresce com gosto de vitória sobre as obscuridades da convivência, sobre as escuridões da sociedade desigual e violenta, sobre as noites escuras da alma.
Para toda vida:
Guarde na memória do coração: 1. O Espírito nos chama à comunhão. 2. O Espírito nos impulsiona às transformações. 3. O Espírito nos faz viver como Luz, segundo dissera-nos Jesus: - Vocês são a luz do mundo.
Medite:
- Eu estou na Luz. A Luz está em mim. Eu sou Luz.
Agradeça. Bendiga. Não desista nunca.
O caminho espiritual cristão é a espiritualidade do Espírito Santo.
Fogo. Chama. Luz.
Por isto: viver no Espírito requer de nós DISCERNIMENTO E, LUCIDEZ.
Sejam todos abençoados, traçando sobre si mesmos o Sinal da Cruz.
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