Aproximava-se a Vigília de Libertação. Estávamos reunidos na Capela de São Miguel, intercedendo por aquela noite. Foi quando me veio uma visualização. Um menino – ao que me pareceu, posteriormente, ser Davi – apanhava cinco pequenas e roliças pedras ao chão. Estava pronto para desferi-las, num golpe certeiro, sobre um inimigo invisível, naquela visão. Todavia não importava o inimigo; importava o menino e aquelas pequenas, mas poderosas, pedrinhas. E logo veio de forma clara o nome que era dado a cada uma delas: amor, perdão, penitência (reparação), humildade e oração.
Com o passar dos dias, preparando-me para a Vigília, cada uma foi se tornando mais clara em seu significado. A própria dinâmica da Vigília se deu a partir desta moção que ficou para mim como uma mensagem para todo o período da Quaresma de São Miguel que estamos fazendo. Na própria Vigília, cada uma destas palavras foi representada, simbolicamente, através de velas coloridas. Proponho a você uma meditação sobre elas.
Amor (vermelho): A origem de tudo. Porque tudo brota do amor e para ele converge, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 16). É um convite a examinarmo-nos: nossas palavras, gestos e pensamentos nascem do amor e a ele estão conduzindo? Amor de fato, como exorta Paulo na epístola aos Romanos 12, 9: “Que vossa caridade não seja fingida”. A cor escolhida foi o vermelho, simbolizando o fogo ardente, o Amor de Deus se manifestando. Patrono: São Miguel, aquele que, por amor, clamou diante da rebelião de lúcifer: “Quem como Deus”!
Perdão (branco): O amor em nós subsiste em uma estrutura marcada pelo pecado, que é, em última análise, a negação do amor. Quando isso acontece, a alma, as relações, a vida ficam feridas. E algumas destas feridas podem, até mesmo, gerar ou conduzir à morte. O amor que se manifesta para curá-las chama-se perdão. “Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós” (Col 3, 13). A cor escolhida é o branco. É a cor básica, que sintetiza todas as outras cores. A possibilidade de recomeçar. É o que o perdão nos proporciona. Patrono: São Rafael, que é o arcanjo da cura. O perdão é a maior força curadora na alma humana.
Reparação (violeta): Quando me veio a palavra penitência, foi no sentido de reparar, tentar corrigir – no que estiver ao nosso alcance – o mal que foi feito. Este, aliás, é o 9º princípio praticado pelo AA (Alcoólicos Anônimos): “reparar, sempre que possível, os males causados”. Não basta fazer um jejum ou algum tipo de abstinência e deixar de corrigir o mal praticado. A verdadeira penitência deve levar a pessoa a converter-se para o outro. “Senhor, disse Zaqueu, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém restituirei o quádruplo” (Lc 19, 8). A cor que simboliza a reparação é o violeta, como a cor da cura. Patrono: São João Batista, o grande profeta da conversão.
Humildade (azul): Não há como viver o amor, no seu desdobramento em perdão e reparação, sem humildade. O orgulhoso não consegue dar este passo. A humildade nos devolve a nós mesmos. Está longe de um sentimento de menos valia. A palavra humildade tem sua origem na palavra húmus, que significa “solo sobre nós”ou ainda “terra fértil”. Em outras palavras, húmus é o nível em que nós estamos. A referência que me veio foi imediata: Maria! É a ela que está dedicada esta virtude e esta busca. “O Senhor olhou para a humildade da sua serva” (Lc 1, 49). A cor dedicada à humildade é o azul, lembrando o manto de Maria. Precisamos nos cobrir com este manto que nos devolve à terra, ao húmus, ao humano.
Oração (amarelo): Amor, perdão, reparação e humildade encontram na vida do discípulo uma forma concreta de serem cultivados: a oração. “A oração é o grande meio para alcançarmos de Deus a salvação e todas as graças que desejamos”, diz Santo Afonso de Ligório. Durante a Vigília, ao falar sobre a oração, quando entrou a vela amarela – cor escolhida para representá-la – veio-me uma frase que senti como uma inspiração do Espírito Santo em mim: a oração traz o amanhecer em nossa vida! Quando passarmos pelas noites escuras da vida, busquemos refúgio na oração. Digo mais: transforme sua vida em oração e você verá o raiar do sol vir sobre você. “Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças” (Fp 4, 6). Patrono: São Jorge, aquele que lutou e venceu “o dragão”. A forma como o vencemos é pela oração.
Não tenho dúvida de que a vivência destas cinco palavras pode mudar uma vida. Não é algo de um dia para outro, mas o cultivo constante desta perspectiva certamente dá ao discípulo e à discípula uma nova luz sobre o caminho da vida. Experimente! |