No início: do caos veio a ordem, porque Deus quis que a vida existisse.
Deus, Criador e Santo, projetou com as próprias mãos a luz, as estrelas, os astros, as árvores e, sobretudo, o homem e a mulher, como seres dotados de inteligência e emoção para cuidarem da terra. E o Deus da Vida viu que tudo o que havia criado era bom (Gn 1 e 2).
Quando professamos o mundo, e a cada um nele como criação, não dizemos do acaso ou da poeira cósmica, mas que Deus do nada pôs tudo o que se move, respira e existe sobre a terra. Essa existência é consistente, porque nasceu do amor de Deus Criador – como realidade dinâmica e diferenciada – como algo bom.
Nesse caso, pode-se até mesmo defender a teoria evolucionista de Darwin, biólogo e naturalista, desde que se afirme convictamente que Deus criou primeiro e, depois, a criação evolui dependentemente da noção de progresso científico e consciência ecológica. Existe um ditado popular que sintetiza essa relação: “Deus perdoa sempre, o homem às vezes e a natureza nunca”.
Se essa é a nossa fé na criação, nós a almejamos como ponto de chegada, pois nosso Deus Cristão não é o deus desconhecido dos gregos, mas, como Criador é, também, o Pai de Jesus e, nele, nosso Pai que aponta o reino e a vida eterna em função do esforço humano e da gratuidade divina.
No fim: a fé é o ponto de chegada.
A fé na criação é ponto de chegada, não de partida, pois não se concebe a presença de Deus no mundo, como uma mera especulação racional, através da experiência e do conhecimento para se chegar à causa primeira ou ao ser necessário. Tal concepção da criação a partir da fé adquirida e possuída leva a identificar esse ser com o próprio Deus. Assim escreveu o teólogo Santo Tomás de Aquino em suas vias, que não concluem em Deus e, sim, no motor imóvel bem ao estilo aristotélico, a causa primeira, o ser necessário, o ser supremo, o fim de tudo, a plenitude dos tempos, “a que, nós dizemos Deus”.
É nessa experiência da fé em Deus que chegamos a conhecê-lo e, somente quando identificamos esse Deus que professamos como criador, podemos afirmar sua bondade, consistência e unidade, diferente de tudo o quanto existe na terra.
A única prova absoluta que temos da existência de Deus é que Ele é o Criador de tudo, o Senhor da vida, a ressurreição de Jesus. Só, então, a partir das provas testemunhais nas Escrituras, não necessariamente científicas, é que professamos a fé em um Deus Solidário e Santo, Criador de tudo o que é bom.
São os testemunhos da fé pós-pascal nos Evangelhos e, consequentemente, as adesões a Jesus Cristo, que garantem a esperança na ressurreição e o recomeço da nova vida. Trata-se, para nós cristãos, do Deus que se revela como nosso Pai na morte de Jesus e como Criador na Sua ressurreição.
Entre o início e fim: toda uma trajetória de fé vivida no Ano Litúrgico.
Pelo mistério pascal que celebramos no ano litúrgico, sentimos o quanto a criação brota desse amor de Deus, que é Criador e solidário, renovador e inculturado.
Encerramos, assim, este tempo litúrgico, na trigésima quarta semana do Tempo Comum, com a solenidade de Cristo Rei do Universo, para iniciá-lo novamente com o advento (conversão e engajamento cristão) em preparação ao Natal. Posteriormente, a quarta-feira de cinzas e a quaresma (oração, jejum e caridade), em vista da Semana Santa, que marca, junto com o Natal, dois núcleos essenciais da fé. Eles estão voltados para o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus, que são atualizados em comunidade no tempo e espaço litúrgicos. Ou seja, o início do Ano Litúrgico é diferente do ano civil.
A centralidade de Cristo no Ano Litúrgico aparece na utilização de duas letras do vocabulário grego que são a primeira e última, “Alfa e Ômega”, ambas traduzidas em português para o “começo e fim”. As letras estão presentes no círio, além dos números do ano e das cinco chagas de Cristo, aceso na vigília pascal para frisar que a luz irrompeu nas trevas. Rezamos, também, que Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.
Isso significa que a bondade do Criador é o “fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não se vêem” (Hb 11, 1), celebrada no tempo litúrgico. Há sem dúvida sinais que alimentam a esperança, porque o fim decretado pela morte é apenas o recomeço de uma vida nova.
A bondade não aparece simplesmente neste mundo que passa, pois a ação paternal e maternal de Deus revela que toda criação geme e sente o parto de uma nova criação, o resgate de um novo ser, portador da adoção filial, que não seja escravizado pelo pecado (Rm 8, 20-23).
Consequências da criação e ressurreição no hoje.
Portanto, confessar que Deus é Criador do céu e da terra significa negar a base do formalismo do culto e da lei que se revestem de sagrado para oprimir o que parece desprezível e insignificante: os pobres. Significa, então, proclamar os pobres como herdeiros do Reino do Céu e da Terra, para que possam sentar-se dignamente à mesa da justiça e paz.
Por isso, é a fé que vence as tentações de reduzir a vida a este mundo materialista e hedonista, como se o fim não fosse o recomeço de uma vida nova, marcada por ritos e celebrações. A fé é essa grande vitória do homem e da mulher, que respondeu ao amor de Deus (1 Jo 5,4).
Não basta, apenas, julgar a história como vale de lágrimas ou fim do mundo, para dizer que tudo isto é o pagamento justo do pecado cometido. Ora, a história, como razão objetiva que rege o mundo, não é o reino do acaso, mas tem um sentido e fim últimos, no qual o filósofo Hegel enxergava num afluir para a perfeição, na posse do bem absoluto, que não é senão o próprio Deus.
Neste sentido, a vida não tem dívida de pecado, porque Cristo derramou seu sangue para nos redimir e há também muitos inocentes redimidos. Não podemos admitir que a dor seja merecida, pois Deus deseja que vivamos felizes. Muitos que sofrem são vítimas da violência ou de uma consciência escrupulosa, não os culpados. Mesmo que fossem os culpados, não se justificaria adotar uma postura de rigidez e conservadorismo, pois o Deus dos cristãos busca o que se perdera para salvá-lo. Rezamos, também, na missa, antes da comunhão “dizei uma só palavra e serei salvo”.
Se nosso Deus não é um juiz carrasco e vingativo, numa palavra, Ele é o Criador, o específico dele é dar a vida. Se existem violência e morte, isto é sinal da “descriação”, que nos leva a perguntar, seriamente, “onde está Deus?” e, por que, o orgulho, a inveja, a cobiça e o individualismo levaram o homem e a mulher a deformarem a criação.
O recomeço: a resposta dos homens e das mulheres ao amor Criador.
Acreditar em Deus a partir do mundo em que habitamos e vivemos, significa chamá-lo e reconhecê-lo nos homens e mulheres de hoje. Que Ele exerça sua soberania e “tenha santificado seu nome” em nossos lábios e atividades para o bem da terra. A fé se converte, assim, em súplica, para que “venha o seu reino” a cada ciclo, celebrado no Ano Litúrgico (Mt 6, 9-15).
Todo protesto, murmuração e dúvida devem se converter, acima de tudo, em mãos novas e operosas para servir a Deus em seu desígnio de Criador, que Cristo realizou plenamente. Quem vive da fé no Deus bom, Criador da vida, refaz a imagem de Deus e diz como Jesus: “O Pai continua até agora operando e eu também opero” (Jo 5, 17).
Enfim, a fé em Deus Criador só alcança toda eficácia e eficiência se tocar de modo expresso e íntimo a dimensão do coração no homem e na mulher de hoje. Quando alguém deseja que este mundo floresça como criação de Deus e sinal da ressurreição de Jesus, esse se põe a agir para que assim aconteça e não demora a descobrir que faz parte do problema que pretende resolver. É, então, que além da caridade e mística (Tg 1, 6.13), surge a necessidade de dilatar as fronteiras do coração com a oração e ação: “Procurai a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, cuidando que ninguém seja excluído da graça de Deus, para que não brote a raiz amarga causando perturbação que contaminaria a muitos” (Hb 12, 14-15). |